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Manual de etiqueta para os elevadores da firma
por Rodolfo Viana sobre Trabalho e Negócios em 04/12/2011 - 16:47Ninguém pensa em elevadores. Exceto ao meio-dia, quando todos os funcionários famintos marcham em sua direção. É o exército de gravatas e sapatênis em busca do pê-éfe. Esses homens e essas mulheres amontoam-se nos 6 metros quadrados como animais enjaulados. Não raro acotovelam-se por mais espaço. Pensam nos mais diversos palavrões quando um colega acima do peso cogita entrar. “Por gentileza, dá um passinho para trás?”, pede de maneira doce a menina do RH, recebendo como resposta grunhidos diversos de ódio. Assim é o elevador.

Elevador: o universo numa casca de noz... (Foto: Bagman66 / Lomography)
A situação piora quando as três mulheres do almoxarifado resolvem colocar em dia suas frustrações em relação ao protagonista da novela. Diante de todos os outros sete funcionários, falam alto como gralhas, vociferam indignação diante do caso extraconjugal do personagem. Aquele canalha! São dez andares, pouco mais de 30 segundos de tagarelagem. Isso se ninguém dos demais pisos chamar o elevador.
O oposto também é comum e igualmente enfadonho: o silêncio. Dez pessoas, dez andares, 30 segundos, nenhum pio. Apenas o tortuoso e aparentemente eterno silêncio. Alguns não se aguentam e explodem: perguntam sobre o tempo.
— Que friaca, hein? — diz o gerente.
— E o jornal disse que vai piorar. Vem vindo uma frente fria do sul. — responde o diretor.
— Jura? Logo hoje, sexta, com um fim de semana todo pela frente? — se intromete a secretária.
— Pois é. — retruca o diretor, voltando a olhar para o chão.
O silêncio volta a imperar soberano.
Link YouTube | Ou botamos ordem nos elevadores ou um dia eles serão assim.
Deveria haver um manual de etiqueta para os elevadores da firma. Aqui vão alguns itens que devem ser contemplados no documento:
- Não puxe conversas pessoais. Apesar de parecer algo simpático, não se engane, não é. Pessoas estão no elevador para chegar a um destino e não para bater papo. Para esta finalidade específica existem o bar, os terapeutas e, para os menos sociáveis, os bate-papos da internet.
- Não fale do tempo. O clima atua sobre todos – em maior ou menor grau. Se você está com frio, o seu colega também está. Não precisa avisá-lo que o tempo está ruim, ok?
- Não conte piadas internas.
- Melhor: não conte piada alguma.
- Desligue o celular. Principalmente se o toque for alguma pérola de Beto Barbosa, Mamonas Assassinas ou Gaiola das Popozudas.
- Há três direções para você apontar o seu olhar durante uma viagem de elevador: o chão, o mostrador e os sapatos – os próprios, não os dos colegas. Qualquer outra direção que você olhar pode ser um insulto e, nos piores casos, resultar em processos por assédio.
- Estão terminantemente proibidas conversas sobre novela, maquiagem, família, doenças na família, mortes na família, nascimentos na família, noites quentes com sua mulher, noites quentes com a mulher alheia e porres do fim de semana.
- Estão permitidos comentários sobre futebol desde que falem bem do Corinthians.
- Grunhidos por falta de espaço e superlotação podem ser soltos desde que não ultrapassem 25 dB (o equivalente ao som emitido pela brisa entre as árvores).
- A preferência de entrada e alocação de pessoas no elevador deve seguir esta ordem: idosos, mulheres grávidas e mulheres bonitas.
Com estes itens simples, conseguiremos um ambiente melhor na firma. Se esqueci de mencionar algo realmente importante, por favor escrevam nos comentários. Mas, por favor, não escrevam sobre o tempo.
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Rodolfo Viana
Jornalista e cover do Pablo (aquele do programa "Qual é a música"). Tem uma seção sobre livros na revista Vida Simples e sempre vence no War quando joga com o exército verde. Se Rodolfo te deve dinheiro, você pode encontrá-lo no Twitter