- 15/05 Sobre ratos e abutres
- 11/05 Faça sua mulher voar..
- 10/05 Não sabemos relaxar
top leitores
Eu tinha a menina mais bonita da cidade.
Ela dizia o que eu estava pensando. Éramos capazes de ler os pensamentos um do outro. Impossível não imaginar que há pessoas que devem se encontrar nesta vida.
Ela criou o meu mundo. E eu vi que ele era bom.
M. e eu éramos amigos. Os melhores amigos na época da faculdade. Não havia quem imaginasse um sem o outro. Estávamos juntos nas aulas, nos trabalhos, fora da faculdade, nas baladas. Ela me contava dos seus amores e suas ruínas – como quando um ex-namorado lhe deu um tapa na cara.
Eu a ouvia com fascínio. E sentia sua dor.
Lembro-me quando demos o primeiro beijo. Foi no elevador do prédio de M. Eu e outros amigos saímos de lá depois de estudar – o que é mentira, pois passávamos o tempo assistindo seriados e fazendo jogos bobos – e, por obra do destino, esqueci meus óculos lá. No caminho de casa, percebi que estava sem eles. Voltei ao prédio.
Subi.
Ela me devolveu meus óculos.
Se propôs a me acompanhar até a porta do prédio na saída.
Ela me beijou.
Descobri que Deus mora nos beijos de M. E lá eu morreria feliz.
Link YouTube | Esta era nossa música. Hoje ela faz sentido
Ficamos juntos poucas semanas, tempo em que o mundo poderia explodir. Eu não me importaria. Sumissem todos da terra, ainda assim eu seria o homem mais feliz do universo, pois M. estava comigo.
As férias do meio de ano se aproximavam, e logo ela partiria para sua cidade. Eu seria a personificação da saudade.
E assim foi. Até que ela me ligou uma tarde:
– Escuta, eu preciso te dizer algo, mas não sei como. Sei que dói em mim e vai doer em você. Mas eu quero voltar para o meu ex.
Muitos homens sabem o que é perder sua mulher para outro, para ex-namorados. Mas poucos sabem o que é perdê-la para um ex que tem histórico de agressão. Na minha cabeça, ela preferia apanhar a me ter como homem.
Pior: eu perdi a namoradinha e, consigo, a melhor amiga. A quem eu choraria minhas dores? Passei por isso sozinho. E doeu.
Por algum tempo, eu fui a definição de miserável.
Link YouTube | O que é um pé na bunda?
Quando as férias acabaram, eu a revi na faculdade. M. veio conversar comigo, explicar o que houve. Ela poderia passar séculos ali, me consolando, dizendo como eu era um bom homem e que “o problema não é você, sou eu”, e nada disso seria o bastante para tirar do peito aquele peso.
Um homem sente não ser mais um homem, o que faz dele um belíssimo exemplar de coisa nenhuma.
Naquele momento, sentado no degrau da faculdade, eu perdi qualquer resquício de inocência que havia em mim. O mundo se tornou um lugar mau. Eu me tornei um homem pior.
Era o que eu imaginava.
Anos depois, ainda encontro M. sempre que visito minha cidade. Ela está casada – não com o ex, mas com um cara muito bacana e que lhe faz feliz. Isso me deixa contente. Às vezes saímos os três, e ela se mantém fascinante.
Desenvolvemos um amor diferente. Não penso em beijá-la, dividir com M. uma casa de cerca baixa e ter uns pequenos correndo por ela. Nada disso. Isso ela pode ter com seu marido. O amor que sinto por ela é um desejo descompromissado de vê-la bem. Eu daria a vida por ela, mas não passaria uma noite em sua cama.
Isso para mim é amor.
-
Rodolfo Viana
Jornalista e cover do Pablo (aquele do programa "Qual é a música"). Tem uma seção sobre livros na revista Vida Simples e sempre vence no War quando joga com o exército verde. Se Rodolfo te deve dinheiro, você pode encontrá-lo no Twitter
Últimos Comentários
Leia Também
-
@portal_homem: Ah, a fascinante (e frustrante) atuação de ratos e abutres... Artigo de @powerbits no Portal Homem: http://t.co/RlWYP4GM -
@portal_homem: Que tal encarar uma crença como um experimento de pensamento? Novo artigo do @pdorje no Portal Homem: http://t.co/8dIUjs0N
Conheça o @portal_homem