top leitores

 
 

arquivos

2012 (133)

2011 (148)

set 2011

Momentos de um macho #1: meu pior pé na bunda

por Rodolfo Viana sobre em 21/09/2011 - 15:51

 Eu tinha a menina mais bonita da cidade.

Ela dizia o que eu estava pensando. Éramos capazes de ler os pensamentos um do outro. Impossível não imaginar que há pessoas que devem se encontrar nesta vida.

Ela criou o meu mundo. E eu vi que ele era bom.

M. e eu éramos amigos. Os melhores amigos na época da faculdade. Não havia quem imaginasse um sem o outro. Estávamos juntos nas aulas, nos trabalhos, fora da faculdade, nas baladas. Ela me contava dos seus amores e suas ruínas – como quando um ex-namorado lhe deu um tapa na cara.

Eu a ouvia com fascínio. E sentia sua dor.

Lembro-me quando demos o primeiro beijo. Foi no elevador do prédio de M. Eu e outros amigos saímos de lá depois de estudar – o que é mentira, pois passávamos o tempo assistindo seriados e fazendo jogos bobos – e, por obra do destino, esqueci meus óculos lá. No caminho de casa, percebi que estava sem eles. Voltei ao prédio.

Subi.

Ela me devolveu meus óculos.

Se propôs a me acompanhar até a porta do prédio na saída.

Ela me beijou.

Descobri que Deus mora nos beijos de M. E lá eu morreria feliz.


Link YouTube | Esta era nossa música. Hoje ela faz sentido

Ficamos juntos poucas semanas, tempo em que o mundo poderia explodir. Eu não me importaria. Sumissem todos da terra, ainda assim eu seria o homem mais feliz do universo, pois M. estava comigo.

As férias do meio de ano se aproximavam, e logo ela partiria para sua cidade. Eu seria a personificação da saudade.

E assim foi. Até que ela me ligou uma tarde:

– Escuta, eu preciso te dizer algo, mas não sei como. Sei que dói em mim e vai doer em você. Mas eu quero voltar para o meu ex.

Muitos homens sabem o que é perder sua mulher para outro, para ex-namorados. Mas poucos sabem o que é perdê-la para um ex que tem histórico de agressão. Na minha cabeça, ela preferia apanhar a me ter como homem.

Pior: eu perdi a namoradinha e, consigo, a melhor amiga. A quem eu choraria minhas dores? Passei por isso sozinho. E doeu.

Por algum tempo, eu fui a definição de miserável.


Link YouTube | O que é um pé na bunda?

Quando as férias acabaram, eu a revi na faculdade. M. veio conversar comigo, explicar o que houve. Ela poderia passar séculos ali, me consolando, dizendo como eu era um bom homem e que “o problema não é você, sou eu”, e nada disso seria o bastante para tirar do peito aquele peso.

Um homem sente não ser mais um homem, o que faz dele um belíssimo exemplar de coisa nenhuma.

Naquele momento, sentado no degrau da faculdade, eu perdi qualquer resquício de inocência que havia em mim. O mundo se tornou um lugar mau. Eu me tornei um homem pior.

Era o que eu imaginava.

Anos depois, ainda encontro M. sempre que visito minha cidade. Ela está casada – não com o ex, mas com um cara muito bacana e que lhe faz feliz. Isso me deixa contente. Às vezes saímos os três, e ela se mantém fascinante.

Desenvolvemos um amor diferente. Não penso em beijá-la, dividir com M. uma casa de cerca baixa e ter uns pequenos correndo por ela. Nada disso. Isso ela pode ter com seu marido. O amor que sinto por ela é um desejo descompromissado de vê-la bem. Eu daria a vida por ela, mas não passaria uma noite em sua cama.

Isso para mim é amor.

  • Rodolfo Viana

    Jornalista e cover do Pablo (aquele do programa "Qual é a música"). Tem uma seção sobre livros na revista Vida Simples e sempre vence no War quando joga com o exército verde. Se Rodolfo te deve dinheiro, você pode encontrá-lo no Twitter

receba os próximos textos

deixe seu comentário
Enviar comentário
Últimos Comentários

Leia Também
 

twitter

Conheça o @portal_homem

 
 

siga-nos

receba os próximos textos