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Formado filosofia pela UFRGS, é escritor, tradutor, debatedor, guitarrista, programador e praticante budista. Sabe conversar como poucos sobre música, cinema, estética, filosofia da mente, religião, ciências cognitivas, física, computação, psicologia, filosofia da ciência, linguagem...
mar 2012

Perguntas e respostas | Criticar o que não vale ser criticado

por Eduardo Pinheiro 16/03/2012 - 11:41

Na segunda-feira, publiquei aqui um artigo que trata do que chamo de lubrificantes sociais. Agora, respondo a duas das perguntas que o meu escrito levantou.

Claudinei Mattos pergunta:
Pelo seu artigo, pode-se fazer a leitura de que crítica nenhuma vale a pena? Por quê?


"Rosas? ROSAS? Eu odeio rosas!" (Imagem: ThinkStock)

Provavelmente foi incompetência minha, mas, clarificando, são dois pontos que realmente se tornam contraintuitivos juntos, e daí o desafio de um texto como esse, para mim e para o leitor. Os pontos são: a) não devemos excluir pessoas pelo gosto; b) não devemos criticar o que não merece ser criticado. São duas visões extremas que, creio, exemplificam o que há de ruim e de bom no elitismo.

O elitismo ruim seria o que trata pessoas e seus gostos como uma unidade, o que é complexo porque as próprias pessoas tentam construir sua imagem com base em seus gostos. Então não tratá-las assim muitas vezes vai contra o que elas mesmas esperariam. Entretanto, creio que quanto mais maduras as pessoas, mais elas são indiferentes às opiniões dos outros, e passam a julgar pelas ações, e não pelo que dizem ou pelas associações que tentam fazer. Ninguém gosta de uma pessoa que faz o "name dropping", isto é, tenta ganhar prestígio ao usar o nome de uma pessoa importante que por acaso conhece. Esse seria o caso extremo da imaturidade, tentar ganhar prestígio por associação. Contudo, na verdade tentei também inserir a terminologia "lubrificante social", porque muitas vezes usamos diversos níveis de "name dropping" com marcas, música, filmes, livros, pensadores, etc. querendo ganhar prestígio por associação, ou pelo menos começar uma conversa. No sentido de começar uma conversa, até está tudo bem. Mas quando passamos a agir em nossas vidas como agimos no Facebook, filtrando as pessoas por um ou outro "post" (uma referência dela a algo), nesse caso é possível que nos tornemos muito reativos ao que, no fundo, não são questões extremamente relevantes.

Já o elitismo bom seria o que de fato não se envolve em propagar o que não merece ser propagado, nem mesmo com críticas. Os ditados "falem mal, mas falem de mim" ou "não existe propaganda negativa" dizem tudo. Se você realmente não gosta de algo, exerça seu elitismo da forma mais pura: ignore totalmente. A crítica é válida apenas quanto a defeitos que encontramos em coisas em que vemos bom valor. "O filme é bom, mas poderia ter evitado isso ou aquilo." Sair do seu caminho para criticar algo que não tem nenhuma "qualidade redentora" (desculpem o anglicismo, redeeming quality, uma coisa que faça valer todo o resto) é falta de continência verbal e, mais que tudo, perder tempo. Sinceramente, vejo isso o tempo todo, e eu mesmo me policio constantemente para não entrar em certas discussões, seja virtualmente, seja em pessoa. Esse sim é um nariz empinado que vale a pena desenvolver, na verdade recomendo o que faço: o contínuo desenvolvimento desse tipo de atitude.

A resposta quanto à crítica é sim, você deve criticar elementos que o desagradam em coisas que, de outra forma, possuem grande valor para você de outro modo. Criticar o que você nunca vai gostar, e o que na verdade, com bons ou maus motivos, você nem quer se envolver, é, na verdade, uma atitude idiota, e não só isso, quase como pura violência verbal.

Essa palavra "crítica" já teve menos o sentido de julgamento de gosto e mais o sentido de encontrar e analisar defeitos. Isto é, ela passou de uma atividade construtiva, de se engajar com o objeto e encontrar o que pode ser melhorado, para uma forma de censura ou quase xingamento. Precisamos hoje adicionar que se trata de uma "crítica construtiva" (o que às vezes cria uma irritabilidade adicional, é verdade), porém o sentido original do termo realmente tem mais a ver com discernir e purgar este ou aquele elemento no contexto de um objeto sendo analisado, isto é, com se envolver com o objeto. Dizer que vai jogar no lixo não é necessário, simplesmente jogue no lixo. Quando estamos esfregando na cara dos outros o quanto estamos jogando no lixo, é realmente mais uma atitude de violência do que propriamente comunicação.

 

Rodolfo Viana pergunta:
Como você vê uma associação saudável entre pessoa e objeto (como um cara que gosta da banda X e, assim, é considerado "parte do grupo")?


Qual banda é a sua cara? E por que ela é sua cara? (Imagem: ThinkStock)

Essa é a questão do lubrificante social. Você descobre as pessoas por pequenas afinidades. Então se você se depara com alguém que vez após vez insiste em usar os lubrificantes sociais errados, que enfim, não saca você, e mesmo assim segue tentando um contato, talvez seja até o caso de encontrar o mais neutro e se inteirar o suficiente.

Dou um exemplo pitoresco. Eu nunca gostei de futebol, acho um saco, um tédio completo. No entanto, o futebol é o principal lubrificante social entre homens, particularmente de classes e situações de vida distintas. Assim, taxistas, porteiros, outro dia até o meu gerente no banco, muitas vezes comentam o assunto futebolístico da semana. Algumas vezes até digo que não gosto de futebol, ou ponho meus fones de ouvido. Em outras ocasiões eu já me vi, se por acaso sei algo das notícias de esporte, porque as entreouvi de alguma forma, me envolvendo na conversa de forma reticente o suficiente para que eu mantenha um nível de camaradagem, e não tenha que contar a minha vida e o que eu realmente acho do futebol. É uma forma de falsidade e mentira branca? Talvez seja, mas é algo que me reconheço cada vez mais fazendo, para não fechar a comunicação e ao mesmo tempo colocar o mínimo possível de energia nisso.

E quem já não aumentou sua conexão com uma banda para aumentar a conexão com uma menina, na adolescência? Porém, essas são sinalizações sociais, não são o cerne da relação, ou não devem ser. Nossa tendência é dar muita importância a nossos gostos e a eventuais críticas que o objeto de nosso gosto recebe. Nos identificamos, algumas vezes propositadamente, com o objeto de nosso gosto. Mas isso não precisa ser assim, e, guardo a posição, é melhor que não seja assim.

  • Eduardo Pinheiro

    Formado filosofia pela UFRGS, é escritor, tradutor, debatedor, guitarrista, programador e praticante budista. Sabe conversar como poucos sobre música, cinema, estética, filosofia da mente, religião, ciências cognitivas, física, computação, psicologia, filosofia da ciência, linguagem...

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