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Desconfie da leitura fácil
por Eduardo Pinheiro 27/12/2011 - 17:27Já ouvi alguns amigos escritores reclamarem da pergunta sempre ocorrente “e como fica a escrita agora com a internet?”, isto é, o que mudaria no texto com a mudança do meio. Também li miríades de artigos assemelhados sobre e-books (que parece irão finalmente penetrar a língua portuguesa agora em 2012, com a entrada da Amazon e outros grandes players no mercado brasileiro). De qualquer modo, a questão do futuro do texto e da leitura parece estar muito viva, e ninguém tem muita certeza de como as coisas serão quando a tecnologia já estiver estável e generalizada por algumas décadas – temos 30 anos de editores de texto, uns 20 anos de web com hipertexto global, e uns 7-8 anos da chamada “Web 2.0”, ou internet colaborativa (wikis, redes sociais). Não sabemos se essas tecnologias serão superadas ou se permanecerão por várias décadas, mas a questão das mudanças no texto certamente só poderá ser bem analisada num escopo muito mais longitudinal que o curto período disponível permite.

Philip Roth (Foto: Bob Peterson/Time Life Pictures)
Quando vejo as pessoas falando em “preparar texto para a web” ,vejo também grande preocupação com o tempo de atenção do leitor, e uma consequente e crescente “publicitarização” do texto; delas vêm várias recomendações sobre a fácil visualização de microconteúdo, isto é, as palavras que se salientam nos títulos e subtítulos (as duas primeiras), no texto (os itálicos e negritos), nas listas, etc. que o leitor com déficit de atenção “varre” com os olhos antes de se decidir a ler, ou que acabam sendo tudo que ele lê. E, de fato, a grande maioria dos textos (e de outras comunicações visuais e auditivas que recebemos) busca vender algo. Quando não a si próprio, algum produto patrocinador – e teoricamente não deveria ser assim nos escopos da educação, da produção científica (por uma questão ética), ou da literatura (ou, pelo menos não de boa parte da literatura, se pudermos admitir em certos âmbitos que a arte de qualidade não precise necessariamente ser essa coisa “pura” e tão desvinculada do comércio).
Esta é uma questão sociológica importante, a de se queremos que nossas comunicações estejam sempre vinculadas a uma etiqueta de preço – e, se algumas culturas funcionam mais assim do que outras, há sem dúvida uma tendência nesse sentido com a globalização. Isso se reflete também na produção textual. Philip K. Dick é um dos grandes profetas da inundação publicitária que vivemos hoje: ele não previu os fanboys da Apple, mas na excelente comédia Os Clãs da Lua de Alpha, fala de androides garotos-propaganda, pessoas artificiais programadas para vender ou pregar uma ideologia. O personagem central do livro prepara/programa o “texto” que o robô vai vender para os outros, isto é, um publicitário que cria uma pessoa cujo início e o fim é a publicidade. Tanto Blade Runner quanto Minority Report, filmes baseados em K. Dick, exploram a ideia da publicidade permeando todo o espaço visual e auditivo da cidade. Mas essa reflexão não precisa nem da ficção científica: James Joyce, na década de 10, coloca no fluxo de consciência de Leopold Bloom (o personagem principal de Ulysses, livro que se passa todo num único dia em Dublin em 1904) vários anúncios publicitários e jingles. Mas isso é fácil de explicar: Bloom, o homem ordinário de Joyce que é um arquétipo para “todo homem”, tem qual profissão? Ele é publicitário!

Willian Faulkner (Foto: Alfred Eriss/Time & Life Pictures)
Quando falamos de arte, a literatura, temos o hype e a venda da imagem do escritor – e também toda a discussão interna do artista, debatida ad nauseam em inúmeros trabalhos acadêmicos, do escrever “para si” ou “para o outro”. Porém, no caso dessas considerações da era da informação, acho curioso que a discussão ocorra tanto no viés do texto ao leitor, e tão menos no viés do escritor ao texto. Talvez possamos falar em três esferas de mudança: mudanças no meio, mudanças no conteúdo e mudanças no mecanismo de escrever propriamente dito.
Quanto ao meio, é certo que a escrita mudou muito do pergaminho e papiro até o papel, ao papel barato e abundante, à imprensa, ao livro barato e abundante, e agora às telas e ao e-ink, e à informação ridiculamente barata e abundante – tão barata e abundante que nosso centésimo de segundo de atenção entrou na economia como um valor. O editor (agora tão glorificado como um “curador”, a buzzword principal de 2011) cada vez mais crucial, e cada um de nós é o editor de conteúdo de nosso “mural” na rede social. Conteúdo e “amigos” são classificados e editorializados com simples cliques.
Muitas vezes, se não era possível julgar um bom livro pela capa, era possível julgar um ruim texto pela qualidade do papel. Literatura de “polpa” (papel jornal): má literatura. Hoje nessa, segundo o anacronismo de Gore Vidal, “obsidiana polida que se ilumina por dentro”, cabe tudo, da pior à melhor literatura. Como saber o que ler? Nosso colega leitor que comenta o livro na Amazon é o crítico/editor aparentemente desinteressado (ele trabalhou por nós, pela Amazon, pela editora e pelo autor sem pagamento) e é muitas vezes crucial para uma compra, se não temos outras referências mais respeitáveis.

Ernest Hemingway (Foto: AP)
Quanto ao conteúdo, nossos primeiros textos são épicos religiosos, e desde o nascimento da escrita ela tem seguido uma progressiva dessacralização, e talvez não possamos ser menos espirituais do que no texting. Mas falando estritamente com relação à tecnologia, temos uma disputa crescente com outros conteúdos: o rádio e principalmente o cinema produziram efeitos sobre o texto, falamos em “linguagem cinematográfica”. E da mesma forma que a linguagem e os clichês do cinema penetraram o que chamamos de intertextualidade em estilo e conteúdo, a própria vasta disponibilidade de outros textos criou o que chamamos de modernidade e pós-modernidade. Se Dom Quixote mencionava a leitura de seu próprio primeiro volume por um personagem no segundo volume, o que falar então de Simpsons ou Family Guy, que algumas vezes exigem uma ida até a Wikipedia para que entendamos alguma piada de referência muito obscura. Talvez quando se fala em dessacralização se pudesse falar na verdade em uma trivialização completa do texto – e realmente, vejo em meus amigos mais literários uma defesa quase religiosa daquele momento com o “livro”, aquele objeto mágico que confere o pertencimento à cultura. O texto, de outra forma, é meramente o contínuo chat de banalidades, as notícias do medo e da indignação e, principalmente, a agora sagrada venda – as três características muitas vezes totalmente misturadas umas nas outras.
Finalmente, quanto ao mecanismo, é muito diferente escrever na “tábula”, a cera em que os alunos gregos riscavam com um estilete, ou com uma pena e tinta de boa qualidade. E quando você tem muito papel porque ele é barato, você pode passar a limpo e corrigir à vontade, desde que coloque esforço e tempo. A máquina de escrever foi, sem dúvida, um fator que deu velocidade e mudou o estilo de concentração do autor: ainda ouvimos poetas dizendo que não dá para escrever poesia à máquina, que é muito frio, etc. Muda a postura: da sonhadora inclinação lateral perante o papel, ao domínio com duas mãos de um monstro sonoro.
Um artigo do NY Times fala sobre a pesquisa de um professor sobre os primeiros livros escritos com processador de texto. A mudança é grave: as anteriormente dolorosas correções se tornam uma flexibilidade incessante. O copiar e colar torna banal a constante reordenação do texto. Que dizer então de buscar e substituir! (Como tradutor, simplesmente não consigo conceber como as pessoas faziam um trabalho grande de tradução sem editores de texto.) E as consultas: a internet tem muito mais do que sua biblioteca razoável poderia ter: e mais sobre gíria, costumes, cultura pop. Claro que para o trabalho de alguns escritores ainda é preciso viajar, entrevistar pessoas, observar o mundo acontecendo, coisas assim: mas todos os escritores consultam outros textos. O acesso a qualquer texto publicado (no máximo você precisa pagar por ele e esperar uns meses, no mais das vezes não precisa esperar, e muitas vezes não precisa pagar) é tão fácil hoje como seria impensável na década de 80.

George Bernard Shaw (Foto: PA)
Por outro lado a leitura, principalmente por entretenimento, parece estar se tornando uma prática de nicho, tal como a prática de um determinado esporte, como o bridge, por exemplo. Encontramos cada vez mais pessoas que vivem suas vidas muito bem lendo muito pouco. Ou, se a pessoa lê, ela parece ler uma dessas séries também vinculadas ao cinema e de grande exposição na mídia. É cada vez mais difícil depositar atenção contínua e persistente num maço culto de 500 páginas, mesmo para aqueles que ainda sacralizam o ato. A competição com outros textos e outras fontes de informação é hoje impressionantemente mais acirrada do que a meros 30 anos atrás. Porém, creio que os leitores cada vez mais reconhecerão textos “publicitários” (escritos para não-leitores alfabetizados) e os evitarão. Escrever diretamente, concisamente, devia ser uma mera questão de estilo, mas talvez já não o seja. Quando o estilo é cooptado pela comunicação da venda e do convencimento, escrever “difícil” (mas de forma clara, correta, direta) se torna engajamento descomprometido no texto – e evoca engajamento do leitor no texto e não na ideologia ou produto que está vendendo.
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Eduardo Pinheiro
Formado filosofia pela UFRGS, é escritor, tradutor, debatedor, guitarrista, programador e praticante budista. Sabe conversar como poucos sobre música, cinema, estética, filosofia da mente, religião, ciências cognitivas, física, computação, psicologia, filosofia da ciência, linguagem...
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