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O blues curtido
por Eduardo Pinheiro 06/08/2012 - 19:17Assim como a palavra “saudade”, cujo espectro semântico no português dizem ser único, o “blues” e muito de seu jargão associado tem algo de ímpar. Quando era criança e via amigas encalhadas de minhas tias tomando cuba libre e ouvindo bolero, “curtindo uma fossa”, eu não conseguia, na minha infantilidade de hiperatividade sucarídea, entender o que havia para curtir em certa dor crônica, prolongada, latente, quase imperceptível, mas sempre ali ao lado. Que tipo de tristeza é essa em que a pessoa voluntariamente se atira? E “curte”?
Ao falar sobre isso quase entrevejo uma cura para a depressão: se aprendermos a lenta curtição de uma tristeza genuína e vivencial, talvez isso nos impeça de simplesmente “desistir”. É mais uma dança patética de fim de noite num bar sujo do que catatonia de não sair da cama nem para ir ao banheiro.

Claro que nos parágrafos acima a medicação alcóolica está quase subentendida, e é óbvio que essa automedicação é extremamente problemática. O que me interessa, no entanto, é a ideia básica de um sofrimento que é aceito, que é integrado e vivenciado plenamente, sem muita ânsia de superação – afinal o bluesman sabe que com a próxima mulher não será muito diferente. A própria palavra “curtir”, muitas vezes usada com música triste, tem algo de trabalhar o couro através de um processo contínuo e demandante, produzindo um objeto final rígido, resistente. O trabalho escravo que originou o blues não tinha nenhuma felicidade embutida, mas o ritmo incessante e a vida comunal proporcionavam um desabafo na forma dos vocais de canto e resposta.
O blues é a música do oprimido e desesperançado, que alça a voz às vezes em prece, às vezes em maldição.
É irônico ver o caminho desta música – uma música que leva o nome de um sofrimento, e que envolve todo tipo de grande ou pequena tragédia, seja pessoal seja conjunta, tal como uma traição ou uma enchente – ao finalmente se tornar, na elétrica Chicago, o primeiro grito poderoso e secular do negro moderno. Dos violões rústicos e das faces marcadas pelas plantações, seguimos para os 700 dólares no bolso, os ternos e carrões, e as bravatas sexuais – todos elementos que ainda encontramos hoje no rap. Mas no fundo, o Hoochie Coochie Man conta a glória de um coitado. É um herói da cabeça do alfinete, e o próprio fato de que ele proclama sua vitória de carisma pessoal e sucesso nos negócios é nada mais do que o velho e bom sofrimento do blues. O canto é uma profecia autorrealizada, é o mojo-feitiço-trabalho-carisma-sex-appeal operando sua mágica pela voz. A minha voz vai me tirar desse buraco, e ao cantar isso, canta-se também o buraco. Não é nem esperança, é magia por “simpatia”, é um mantra que transforma a realidade. O couro curtido é o talismã da carreira que ganha admiradores tão inusitados quanto garotos na Inglaterra, que possivelmente nem haviam avistado homens negros em suas jovens vidas europeias.

O ouvinte moderno de blues, o branco intelectual meio almofadinha que coleciona álbuns e conhece até as mais incomuns biografias, esse anseia pela experiência genuína de seus super-heróis contraintuitivos. Entre os que se aventam a tocar a que parece a mais simples das formas musicais (almofadinhas brancos como eu), deparam-se com as sutilezas e irregularidades que fazem com que o blues seja um objeto estético tão refinado. É fácil demais encontrar jovens que se deleitam com o blues e adquirem equipamento, aprendem a escala pentatônica e saem tocando aqueles poucos acordes como se fossem bluesmen... é tão comum encontrar o blues fajuto. O blues pode ser simples no papel, mas não é facilmente conquistado, especialmente no mundo frívolo que busca emular na vida boêmia e no equipamento vintage o que foi conquistado na vivência dura e crua da vida pequena e aparentemente irrelevante do oprimido.
O blues só acontece quando nossa tristeza pode ser genuinamente curtida. E é realmente como andar na corda-bamba. Recentemente fui apresentado a Sean Costello, um grande guitarrista e cantor de blues que faleceu em 2008, vítima de seu distúrbio bipolar. Ao ver Sean tocar, é possível vislumbrar um pouco o tipo de sofrimento com que ele lidava. Infelizmente o blues não foi suficiente no caso dele.

De forma geral, no entanto, no nível daquele bolero da dor de cotovelo, creio que o blues pode ser terapêutico. Normalmente quando estamos tristes, pensamos que a última coisa que queremos ouvir nesse momento é um grito de lamento. Ainda assim, há vários motivos pelos quais talvez devêssemos. Um deles diz respeito a aprender a vivenciar adequadamente a tristeza, e outro, mais importante, diz respeito a colocar em perspectiva nosso próprio sofrimento. Quando pegamos uma música do delta carregada com a opressão de todo um povo, cantando seja o corno levado, seja o sofrimento generalizado de um nascido sob mau auspício e assombrado pelo cão do inferno, o macaquinho que você leva nas costas vai com certeza parecer mais um mero problema de classe média.
E se você porventura tiver o dom de cantar a glória de seus 700 dólares no bolso, por favor o faça. E me mande o link.
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Eduardo Pinheiro
Formado filosofia pela UFRGS, é escritor, tradutor, debatedor, guitarrista, programador e praticante budista. Sabe conversar como poucos sobre música, cinema, estética, filosofia da mente, religião, ciências cognitivas, física, computação, psicologia, filosofia da ciência, linguagem...
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