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Relacionamentos
Com formação em filosofia e pedagogia pela USP e experiência em dança de salão e meditação, é colunista da revista Vida Simples, autor do Não2Não1 e editor do PapodeHomem.
set 2011

Cinco bons momentos para você perceber a base da relação

por Gustavo Gitti 19/09/2011 - 12:05

Não existem especialistas em relacionamentos.

Experiência pessoal, bagagem, bodas de ouro muitas vezes só solidificam crenças (olhe para nossos avós, tios e pais). Erudição, rigor acadêmico, experiência clínica, pesquisas científicas podem se construir ao redor de obscurecimentos e equívocos, além de exigir que os outros entendam conceitos complexos antes de olhar e transformar suas próprias relações. Religiões, práticas esotéricas, discursos espirituais talvez reprimam aflições e obstáculos, em vez de esclarecer e ajudar.


Não existem gurus do amor (Foto: Divulgação)

Quem tem alguma autoridade para falar de relacionamentos? Um xamã, uma psicanalista, um neurocientista, um poeta, uma jovem apaixonada? A verdade é que os mais sábios, os que mais poderiam ajudar, não perdem tanto tempo focando em draminhas de relacionamento. Eles sabem que nossas perguntas sobre ciúme, sexo meia-boca ou carência se resolvem em outro nível.

Portanto, só podemos dar risada ao entrar aqui nessa área do Portal Homem.

Depois disso, no entanto, talvez surja alguma ousadia. Se ninguém atualmente ocupa o papel de especialista em relacionamentos, por que cada um de nós não poderia explorá-lo? Dependemos mesmo de décadas de experiência pessoal, extensa bibliografia, pesquisas atuais ou podemos abrir bem os olhos e ver?

É esse meu objetivo aqui: cultivar um espaço para que nós possamos experimentar, testar, usar nossos relacionamentos como laboratório, brincar com a vida, descobrir dinâmicas que nos aprisionam, processos que nos liberam, jeitos de tocar e de ajudar uns aos outros nesse bate-cabeça das relações.

O que é uma boa base?

Já que calhou de estarmos por perto de alguém, o melhor modo de participar é não criar ainda mais confusão e ajudá-lo a viver melhor, ser mais feliz, mais autônomo, inteligente e aberto, com menos travas e aflições.

Sexo, jantares, viagens, casamento, apartamento podem fazer parte do pacote, mas não são um fim em si mesmo. O próprio relacionamento não deveria ser um fim em si mesmo, caso contrário podemos nos matar ao tentar salvar o relacionamento.

Uma boa base, portanto, se manifesta na intenção de beneficiar o outro e não prejudicá-lo. Simples assim.

Uma base mais restrita também é fácil de definir, mas quase impossível de evitar: o outro existe para nos satisfazer. Infelizmente isso às vezes funciona por um longo tempo, mas não traz tantos benefícios porque mesmo que o outro desempenhe seu papel quase perfeitamente, ainda estamos operando sob autocentramento, então sofremos e seguimos insatisfeitos.

Para flagrar a base em que estamos construindo nossas relações, vou listar cinco momentos. Experimente usar tais brechas para detectar a qualidade de suas relações. A minha aposta é que nós todos temos muitas dificuldades em sustentar uma boa base. A situação é muito mais grave do que imaginamos.

1. Visualização interna

Construir uma relação durante uma viagem para Bora Bora é fácil. O desafio é tecer os laços à distância. Na verdade, toda relação nasce mesmo é dos momentos de solidão, quando não estamos com o outro. É aí que definimos se vamos nos encontrar de novo ou não, é nesse espaço sutil que somos promovidos de estranhos para namorados para pais, muito antes da gravidez acontecer.


É fácil sustentar laçoes afetivos quando o casal está juntinho numa ilha (Foto: Divulgação)

A qualidade da relação surge a partir da visão que temos do outro, de como lhe damos nascimento, de como o construímos internamente. Somos capazes de sonhar, de imaginar como ele seria se superasse seus obstáculos e crescesse mais e mais? Quando visualizamos nossa namorada, ela sorri e é ainda mais bonita do que parece atualmente? Sentimos vontade de cuidar dela ou ficamos medindo qualidades para ver se vale a pena, se ela nos satisfaz, se tem outra melhor?

2. Brigas

Quando o outro se perde, se confunde, erra, joga contra, dificulta, nós sustentamos a relação, ajudamos o outro a destravar, desatar, liberar, ou reagimos igualmente com mais confusão?

Ouvimos o que nossos monstros dizem ser a realidade? Deixamos que nossas aflições sequestrem o outro? Fazemos exigências para o resgate, negociamos, humilhamos sutilmente, atacamos, nos fechamos, nos defendemos?

Qualquer briga pode ser um momento precioso para diagnosticar a base de um relacionamento. Não pelo seu conteúdo, mas pelo modo com que lidamos e nos movimentamos quando algo entorta.

3. Meses após a separação

Às vezes ex-namoradas e ex-namorados mantêm algum contato e após poucos meses, geralmente quando são abandonados, tentam dar o bote de novo, na tentativa de provar o quanto mudaram, o quanto aprenderam, como agora sim tudo vai dar certo. Em geral, eles estão cegos para onde o parceiro está na vida, para o que ele precisa ou não precisa, como está se movendo, o que está fazendo.

Nessa hora tudo o que queremos é ganhar o jogo novamente, acabar com a dor da carência, receber o certificado da transformação (que só vale se vier de quem nos rejeitou), resgatar a identidade, voltar àquele mundo que tinha tanto passado e tanto futuro… Eis um excelente momento para perceber qual é a nossa verdadeira motivação para reconstruir o casal.

4. Autonomia à distância

Quando tudo se encaixa, durante alguma comemoração de um marco na sua vida, naquele instante de extrema liberdade e alegria, e que por algum motivo o outro não está presente, talvez surja a percepção nítida de que você não precisa do outro, de que poderia seguir sua vida muito bem sem esse relacionamento.


Tudo está indo tão bem... longe dela (Foto: Divulgação)

Se essa percepção vem acompanhada da vontade de compartilhar sua vida com o outro e seguir a relação sem a necessidade de seguir a relação, isso é um ótimo sinal. Se não conseguimos imaginar nossa vida sem o outro, nossa liberdade foi corrompida, estamos cegos para outras possibilidades e provavelmente vamos sofrer e causar muita dor assim que a vida começar a ser sacana.

5. Fase ruim

Assim que a vida do outro piora e se enche de dificuldades, quando ela perde brilho ou ele perde potência, em tempos turbulentos e capengas, como reagimos? Alan Wallace explica o teste:

“O teste do amor versus o apego pode ser feito quando você percebe que uma pessoa que você ama muda para pior. O que acontece? Se o amor for genuíno, os sentimentos de amor crescerão mais fortes. Se o amor for realmente um apego, haverá um afastamento.” – Alan Wallace

Dois convites

Agora você pode deixar um comentário sobre as visões que ofereci, aproveitando para contar em quais momentos consegue perceber mais claramente a qualidade, a base do relacionamento.

E pode também deixar uma pergunta sobre como trocar de base, sobre como transformar um relacionamento. Vou explorar algumas das questões levantadas na semana que vem.

Abração!

  • Gustavo Gitti

    Com formação em filosofia e pedagogia pela USP e experiência em dança de salão e meditação, é colunista da revista Vida Simples, autor do Não2Não1 e editor do PapodeHomem.

Se você tiver dúvidas ou perguntas sobre outros assuntos, clique aqui.

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